1. Como uma das principais lideranças da ABDC e especialista com forte atuação na infraestrutura digital brasileira, o senhor acompanhou de perto o salto tecnológico do nosso mercado. Olhando para a sua carreira, como a sua vivência prática no setor fortalizou a sua visão?Luis Tossi: A história do Data Center acompanha de perto a própria evolução tecnológica do processamento de dados. Nas décadas de 1970 e 1980 tínhamos os mainframes e os Centros de Processamento de Dados (CPDs), que evoluíram progressivamente com a microinformática, os computadores em rede, a chegada da internet e, posteriormente, os serviços em nuvem. A Cloud moldou a indústria até a recente consolidação da Inteligência Artificial generativa. No Brasil, esse mercado tem pouco menos de 20 anos. Trata-se de uma indústria extremamente jovem que cresceu de forma acelerada. Com o amadurecimento natural do setor, tornou-se indispensável o surgimento de entidades como a ABDC, que sintetiza a voz do mercado de construção e operação de Data Centers. Quanto à regulamentação e organização, acreditamos que são passos fundamentais. Por ser um setor novo, ainda existe um desconhecimento expressivo por parte do cidadão comum e do Poder Público (Executivo, Legislativo e Judiciário) sobre o que é um Data Center, suas tipologias, subgrupos e os padrões operacionais adotados no país. Uma boa legislação nasce quando o legislador escuta e compreende a dinâmica do setor, criando regras aderentes aos padrões internacionais que já são extremamente rígidos. Estabelecer leis sólidas e alinhadas à realidade técnica garante segurança jurídica ao investidor, que opera em um mercado de longo prazo e altamente intensivo em capital. O papel da ABDC é justamente este: reunir o setor, identificar gargalos e prioridades e construir uma interlocução qualificada com o Poder Público para desenvolver políticas capazes de estimular o crescimento sustentável da infraestrutura digital brasileira. O ReData é um exemplo claro desse trabalho. Ele não trouxe apenas incentivos tributários para tornar o Brasil competitivo internacionalmente, mas estabeleceu contrapartidas em sustentabilidade, pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D+I), eficiência energética e atendimento ao mercado nacional. É uma política pública desenhada para associar atração de investimentos ao avanço tecnológico e econômico do país.2. O setor de Data Centers vive um crescimento sem precedentes, impulsionado pela expansão da Inteligência Artificial, do processamento em nuvem e do 5G. Sob a perspectiva da ABDC, quais são os maiores desafios e as principais oportunidades que o Brasil enfrenta hoje para se consolidar como o grande hub de dados da América Latina?Luis Tossi: O Brasil já se posiciona como o principal mercado de Data Centers da América Latina. Hoje, contamos com aproximadamente 1 GW de capacidade de TI instalada e vislumbramos potencial para atingir algo próximo de 4 GW nos próximos anos. Uma expansão dessa magnitude pode atrair cerca de R$ 1 trilhão em novos investimentos para o país. A Inteligência Artificial acrescentou uma dimensão inédita a esse cenário. Há uma corrida global por capacidade computacional intensiva, e essa infraestrutura demanda volumes massivos de energia, conectividade, disponibilidade territorial e segurança operacional. O Brasil reúne condições ímpares para liderar essa disputa: dispomos de uma matriz elétrica majoritariamente limpa e renovável, grande disponibilidade de terras, conectividade internacional consolidada, estabilidade geopolítica e um mercado consumidor expressivo para serviços digitais. A aprovação do ReData eliminou uma desvantagem tributária histórica e elevou nossa competitividade. Agora, precisamos avançar nas etapas seguintes.3. Até recentemente, o mercado esteve concentrado no eixo Sul-Sudeste. Como a ABDC enxerga a descentralização do setor e o potencial do Rio Grande do Norte — que combina abundância de energia limpa (eólica e solar), localização geográfica estratégica e crescente interesse institucional — para atrair projetos de grande porte (Hyperscalers)?Luis Tossi: Historicamente, os Data Centers foram implantados próximos aos grandes centros consumidores dos serviços em nuvem, fixando-se no Sudeste. Contudo, com a explosão da demanda e a necessidade de processar cargas computacionais cada vez maiores, outras regiões passaram a reunir atributos estratégicos para ingressar nesse ecossistema. O Nordeste detém diferenciais competitivos valiosos nessa nova geografia digital: altíssimo potencial de geração renovável, conectividade internacional, área territorial disponível e governos engajados na atração de empreendimentos, especialmente voltados a aplicações que não exigem altíssima criticidade de latência. No entanto, a capacidade de geração de energia, isoladamente, não basta. Um Data Center de grande porte exige o recebimento de expressivos blocos de potência com absoluta segurança, redundância e previsibilidade. Além disso, a conectividade e o time-to-market são determinantes. Licenciamentos céleres e prazos ágeis de acesso à rede elétrica são premissas indispensáveis. Por essa razão, defendo um planejamento totalmente integrado entre